Abram as vossas bocas em jeito de espanto: tenho uma ligeira alergia a pessoas que se acham melhores que as outras. Pessoas que não podem ver a alegria nos outros, porque assim achamos todos que temos uma vida sempre fantástica. Pessoas que não podem ver os outros mais tristes/irritados/chateados/com vontade de bater em meio mundo, que somos os ridículos que não conseguem pôr-se de pé sozinhos e que andam sempre deprimidos e a chorar pelos cantos.
"(Eu sou a/o melhor), sou original"; "(Eu sou a/o melhor), não falo daquilo que todos os outros falam"; "(Eu sou a/o melhor), não tenho os mesmos sonhos que metade do planeta"; "(Eu sou a/o melhor), não preciso da ajuda de ninguém"; "(Eu sou a/o melhor), os outros são todos fúteis"; "Eu sou a/o melhor), tenho opiniões estoicamente formadas, que se destacam de todas as outras e trazem interesse ao mundo".
Façam-me o favor de descer à terra e fazerem algum trabalhinho de reflexão, caindo na realidade que é este pequeno quintal em que vivemos. São efectivamente poucas as pessoas que são originais o suficiente para serem especiais, sem precisarem de se sentir superiores aos outros. São efectivamente poucas as pessoas que se destacam sem ter que dizer mal de meio mundo pelo caminho. Todas as pessoas têm um sonho na vida que é igual ao do vizinho do lado, não duvidem. Todos temos um lado fútil, gastador, desprezível de tão materialista que é (bom, aqui [talvez] salvo certas ordens religiosas e pessoas espirituais que, mesmo assim, não deixam de cair nessa tentação). Todos nós precisamos uns dos outros. Ninguém sabe de tudo, tem conhecimento para falar de tudo com certeza - aqui não há tudólogos. Opiniões são opiniões, todos temos direito a dá-las, mesmo que não tragam nada de novo ao mundo, mesmo que não sejamos aqueles pensadores filósofos que, de quando em vez, fazem a humanidade reflectir.
Aprendam a ser humildes, meus caros. Não é fácil, mas com algum esforço e maturidade todos podemos lá chegar.